Resenha do filme: “ENCONTRANDO FORRESTER”
(Imagem reprodução)
Direção: Gus Van Sant, Roteiro: Mike Rich, EUA, 2000, 136 min., color.
Elenco:- Sean Connery, F. Murray Abraham, Anna Paquin, Robert Brown,
Michael Nouri, April Grace, Matt Damon, Busta Rhymes.
ENCONTRANDO FORRESTER é um filme dirigido a leitores e amantes de
literatura. O filme conta com a ótima atuação dos experientes Sean Connery
(Forrester) e F. Murray Abraham ( professor Crawford), além do bom trabalho do
estreante Robert Brown (Jamal).
Aqui a arte do cinema aborda o tema da arte de escrever, pontuado pelos
conflitos pessoais dos personagens. O filme mostra que escrever, ao contrário
do que muitos pensam, não é só fruto de uma “inspiração divina”, que flui de
maneira natural e perfeita de quem nasceu com este dom, é também um trabalho
árduo e que necessita técnica e treinamento.
O pano de fundo para este tema mostra os conflitos gerados pelos
preconceitos racial e social, além do peso da crítica para um autor.
Resumo
O filme mostra os conflitos de um jovem negro de classe baixa chamado
Jamal, que vive no Bronk e se destaca no meio acadêmico, tanto pela sua
habilidade no basquete quanto pelo talento em escrever.
O rapaz recebe uma bolsa numa escola particular de Manhatan, bastante
conceituada, onde passa a sofrer preconceito tanto dos alunos quanto do
professor de literatura, que imagina ser o basquete seu único objetivo para se
tornar bem sucedido e desconfia da autoria dos trabalhos por ele apresentados.
Paralelamente Jamal conhece William Forrester, um escritor que se tornou
uma lenda e uma curiosidade no Bronk por viver recluso em seu apartamento, e
uma importante referência no meio literário por ser um grande escritor,
vencedor do premio Pulitzer, com uma só obra publicada em toda sua vida.
A partir daí, desenvolve-se uma amizade, onde mestre e discípulo trocam
ensinamentos não só do ofício de escrever, mas de lições de vida.
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Resenha crítica
“Primeiro se escreve com o coração, depois se reescreve com a cabeça” –
Essa é a frase chave dos ensinamentos do escritor Forrester para seu pupilo, o
jovem que aspira tornar-se um grande escritor.
Pobre, negro, talentoso e perseverante. Com este perfil, o personagem
Jamal segue em busca da realização de seu sonho e tenta ultrapassar as
barreiras do preconceito e da discriminação.
Este é o assunto que o diretor Gus Van Sant aborda em primeiro plano,
logo nos primeiros trinta minutos do filme. O personagem que vive no Bronk com
a mãe, e cujo pai morreu viciado em crak, encontra na escrita uma forma de dar
vazão aos seus sentimentos. Num segundo momento, ao conhecer Forrester, Jamal
projeta no escritor a figura paternal ao mesmo tempo que Forrester vê no pupilo
um resgate de sua juventude. Orientador e pupilo transcendem esses papéis na
medida em que a amizade entre eles se desenvolve.
Forrester, a figura mais intrigante do filme, é desvendado aos poucos.
No início ele parece ser somente um velho rabugento e solitário, que vive
recluso em seu apartamento num bairro de classe baixa, mas o diretor vai
tirando camada por camada, as máscaras do personagem. Apesar de seu jeito
agressivo, ele se deixa envolver pelo jovem que pede sua ajuda e que, por força
do destino, torna-se uma ponte entre ele e seu passado, já que seu professor de
literatura é um antigo desafeto de Forrester.
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Neste ponto vê-se que a crítica teve um papel fundamental na vida
profissional do escritor. Sua primeira obra, vencedora de um importante prêmio
literário, e aclamada pela crítica e pelo meio acadêmico como “A obra do
século”, tornou-se um peso na vida de Forrester, que passou a repudiar qualquer
tipo de crítica já que, segundo ele, “os críticos falam o que acham que sabem,
ao passo que o autor é quem sabe realmente o sentido de sua obra”. Segundo
Jamal, o próprio professor Crawford analisa a literatura de Forrester
relacionando o autor com o personagem central do livro, sugerindo que o autor fala
de si, o que revolta Forrester por considerar tal afirmação uma opinião
equivocada de um escritor frustrado. Forrester parece sentir-se invadido e
desrespeitado, mesmo com a consagração pública de seu trabalho.Sua posição
tornou-se tão radical, que o escritor impediu, no passado, a publicação de um
livro de autoria do professor Crawford, que falava sobre ele e sua obra.
No caso de Forrester, a crítica parece ter sido o motivo de sua reclusão
e de o escritor não ter publicado mais nenhuma obra. Na verdade, existem
paralelos reais do personagem, ou seja, autores reclusos, avessos à divulgação
de seu nome e às críticas, como por exemplo, Jerome David Salinger:
“Jerome David Salinger, o autor, é uma figura estranha. Nascido em 1919,
desde sempre foi avesso à imprensa ou outras formas de divulgação da sua
figura, tornando-se paranoicamente recluso. Ainda na época do lançamento de The
Catcher in the Rye, na década de quarenta, fez o seu editor prometer que não
lhe enviaria quaisquer críticas que fossem publicadas sobre o livro. Reclamou
também que a sua foto na contra-capa estaria muito grande. Solicitou que não
fosse feita qualquer publicidade do livro aludindo à sua pessoa, alegando que
não queria correr o risco de acreditar no que leria.” ( Nemo Nox é editor do
blog Por um Punhado de Pixels e do site http://www.burburinho.com/, onde este texto foi
originalmente publicado).
Apesar da posição do personagem, Forrester mostra-se apaixonado pela
arte da escrita, que para ele é um ofício a ser dominado e que exige técnicas,
que o escritor passa ao orientando, tais como: “escrever o que lhe vem à
cabeça, sem pensar”, ou “copiar um texto e deixar que as próprias palavras
surjam naturalmente e dêem início à criação literária”.
Num terceiro momento, o diretor aborda o aprendizado como uma troca,
quando o mestre se apresenta na escola de Jamal para fazer a leitura de seu
texto, demonstrando humildade e respeito pelo jovem escritor. Forrester
reconhece que o rapaz, apesar de correr o risco de perder a bolsa e ser acusado
de plágio, respeitou o pedido do amigo de não revelar a relação entre ambos.
Forrester agora já não é mais o mestre, seu pupilo está pronto, tanto
que o escritor, após sua morte, deixa para o rapaz um manuscrito inédito, com a
orientação de que o prefácio seja escrito por Jamal.
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Considerações finais
O tema do filme leva à reflexão sobre o papel dos meios acadêmicos na
vida prática das pessoas, já que o mesmo retrata a escola como uma instituição
um tanto viciada, submetida a regras e conceitos que nem sempre se aplicam ao
dia-a-dia dos alunos. Não deveria ser a escola um ambiente de trocas de
conhecimentos entre alunos e professores, possibilitando que a aprendizagem se
dê através de estímulos, pela interação e pela curiosidade? O filme demonstra
claramente o engessamento das instituições e as limitações do professor
Crawford devido a seus preconceitos, e a dificuldade de aceitação do “diferente”,
trabalhando a educação de cima para baixo, através de uma hierarquia que não
permite aos educandos uma participação ativa no aprendizado.
Os tabus certamente são difíceis de serem rompidos, e isto fica claro
não só na trama, mas também no trabalho do diretor que, no romance entre Jamal
e Anna, sua namorada branca e rica, não se permite mostrar um só beijo entre
eles, apenas toques de mãos. Bastante inverosímil, em se tratando de dois
jovens adolescentes e apaixonados.
Referências bibliográficas
TEIXEIRA, Ivan. Anatomia do crítico. In: Revista Cult.
WILLEMART, Phillipe. Paradigmas de um crítico. In: Revista Caros Amigos.
MACHADO, Luis Almeida. O cinema na escola. In: Site Planeta Educação.
ARONOVICH, Lola. Perto do Forrest, longe do Gump. In: Site Escreva Lola,
Escreva.
Texto: Moisés Cavalcante




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